Graal RJ

>Portos Azuis (Parte 2)

>Visão Geral de Portos Azuis – continuação:



A vida fora das muralhas:


A genuína Portos Azuis está, contudo, fora das muralhas dos fortes. O espírito que permeia toda extensão do velho reino não pode ser entendido pela mera leitura de livros ou tomos empoeirados. A verdadeira face dessas terras está no espaço entre os lugares, nas estradas desertas, nas sombras das árvores, nos cochichos nas tavernas. Não se pode aprender sobre essas coisas na grande biblioteca dos cavaleiros, nem nas torres altas dos magos, mas nas vielas escuras, na escuridão das docas, nas vozes sedentas das matas.

Embora formadas, em maioria, por sobreviventes do majestoso império, as comunidades que atualmente povoam Portos Azuis não tem nada de grandiosas. Longe das cidades-fortificadas, dispersas e por vezes perdidas, pessoas humildes fundaram uma miríade de vilas e vilarejos pobres que servem como lar para bandoleiros, ladrões, mercenários, fazendeiros e pequenos comerciantes.

É comum encontrar nessas vilas uma arquitetura estranha – combinação esquizofrênica entre o esplendor e a pobreza – como um agricultor que cultiva batatas sobre as ruínas de uma majestosa catedral, ou cortiços de pau a pique construídos sobre colunas imensas, feitas em outra era, mas que ainda lhe dão sustentação para resistir a tempestades.

A população dessas vilas é igualmente heterogênea: aventureiros tentando a sorte nas perigosas ruínas do reino; missionários da ordem do Santo Peregrino tentando restabelecer valores esquecidos pelo povo; pequenos fazendeiros que tem que suar e labutar sob o sol para garantir sua subsistência; comerciantes astutos que enriquecem explorando a população; e, é claro, ladrões e bandoleiros as centenas.

A propósito, a maior marca de Portos Azuis talvez sejam seus ladrões e bandoleiros. Em cada curva da estrada e em toda taverna existe um desses grupos de indivíduos sem escrúpulos, esperando por qualquer oportunidade para conseguir algum dinheiro sujo. Mas, o problema do reino vai muito além dos bandoleiros, mesmo o cidadão comum, o simples fazendeiro, costuma ser desonesto e paranóico – não sem razão –, pois a sobrevivência nessa terra desolada é uma luta constante, envolvendo dinheiro, astúcia, maldade, força e poder. Dizem que aqueles que aprendem as lições desse território podem sobreviver até mesmo em um ninho de cobras. Não estão mentindo.

Areias Claras:

A cidade de Areias Claras se ergue como uma zombaria a glória do antigo império. Antes, mesmo os mais belos jardins eram ofuscados pela beleza das construções humanas, relegados a sombra das gigantescas torres. Atualmente, no entanto, Areias Claras é considerada um oasis na devastação da terra, um paraíso e exceção as chagas que corroeram Portos Azuis.

De qualquer jeito, é verdade: a cidade dos hobbits é diferente. Ela é, definitivamente, mais aconchegante que o resto do reino e mais elegante também. Um local onde se pode passar tardes inesquecíveis, caminhando entre os belos jardins, provando fumos exóticos e apreciando a arte – música, pintura, dança – da intensa vida cultural da região.

Os cidadãos mais incautos, contudo, se deixam iludir pela aparência tranqüila da cidade: os pequeninos, com certeza, sabem valorizar o conforto melhor do que qualquer outra raça de Vento Verde, mas para mantê-lo pagaram (e ainda pagam) um preço alto demais. Faziam mais de 150 anos que os hobbits haviam sido acolhidos dentro do antigo império de Portos Azuis; mais de um século crescendo com apoio de grandes reis humanos e sob a proteção de resistentes muralhas; sempre incentivados, sempre bem tratados por todo reino; mas, quando a Revolta dos Bárbaros eclodiu e os humanos precisaram da ajuda dos pequeninos, Areias Claras se omitiu. A cidade deu livre passagem aos bárbaros, permitindo-lhes avançar impunes e se espalhar pelo império. Os hobbits alegaram que eram pacifistas e que abominavam qualquer tipo de conflito, mas a verdade é que era insuportável o pensamento de arriscar seu precioso conforto por lealdade, mesmo que fosse aos humanos que lhes trataram como pares. Assim, Areias Claras foi poupada da destruição da guerra e, por isso, hoje é considerada a maior pérola dessas terras.

Seria bom dizer que a culpa dessa covardia pesa, desde então, amargamente na consciência dos hobbits, mas longe de ser assim: a prática de negociar com o inimigo se manteve e, ainda por cima, cresce a cada dia nessa comunidade. O Comando Dourado se lançou sobre a carcaça do império como abutres e os hobbits tiveram que firmar acordos para se protegerem de confrontos diretos com o crime organizado. Com o apoio passivo de Areias Claras foi fundada a base para o veneno do Comando poder se espalhar cada vez mais por Vento Verde, bem além das fronteiras de Portos Azuis.

Entretanto, o comodismo e oportunismo não foram as únicas heranças que os pequeninos receberam do antigo império. A boca miúda circula um boato, só entre aqueles com os contatos certos, de que por ser o único lugar que permaneceu intacto após a guerra, os hobbits de Areias Claras conhecem certos segredos esquecidos: verdades mágicas e fantásticas, ignoradas pelos habitantes atuais dessas terras desoladas.

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